Eurodeputada Vautmans vai propor debate sobre relação UE-Moçambique

 


A eurodeputada belga Hilde Vautmans afirmou hoje, em entrevista à Lusa, em Maputo, que vai propor um debate, no Parlamento Europeu, sobre a relação da União Europeia (UE) com Moçambique, garantindo que o país é "estratégico".

"Vamos tentar fazer um debate sobre a relação UE - Moçambique na sessão plenária de Estrasburgo e depois votar uma resolução com recomendações. Penso que é uma questão que está nas nossas mãos. Esta parceria é de importância estratégica. Temos de fazer um acompanhamento parlamentar", afirmou Vautmans, porta-voz da delegação da Comissão do Desenvolvimento do Parlamento Europeu.

Quatro eurodeputados desta comissão estão em Moçambique desde terça-feira para avaliar os impactos do apoio da UE, recordando que nos últimos anos, através de fundos europeus ou pelo Banco Europeu de Investimentos, já foram atribuídos ao país africano 975 milhões de euros.

"E penso que o Parlamento também precisa de trabalhar em conjunto com o parlamento de Moçambique, especialmente porque tivemos aqui uma missão de observação [às eleições de 2024] com uma série de recomendações", acrescentou Hilde Vautmans, que é também presidente da Delegação à Assembleia Parlamentar África-UE.

Moçambique realizou eleições gerais em 09 de outubro de 2024, com críticas à transparência do processo eleitoral de várias missões de observação, incluindo da UE e do Parlamento Europeu, conforme consta do relatório final que também integra recomendações. Seguiram-se às eleições cinco meses de protestos e agitação social que provocaram mais de 400 mortos, sobretudo em confrontos com a polícia, conflitos que culminaram com um processo de diálogo, anunciando reformas, inclusive constitucional, a aplicar em dois anos, para pacificar o país.

Hilde Vautmans garante que questionou o Governo moçambicano, nomeadamente a ministra dos Negócios Estrangeiros, Maria Manuela Lucas, com quem se reuniu na quinta-feira, sobre se as recomendações da missão de observação eleitoral seriam levadas em conta.

"Ela disse que sim, mas é claro que ainda não o consigo controlar. Ainda não estamos a ver os resultados. Disse que vamos precisar de mais dois anos, o que eu compreendo, porque quando se quer reformar um sistema, é preciso tempo. Mas prometo-vos, como deputada, que faremos o acompanhamento das recomendações. Precisamos de o fazer. Foram os nossos colegas que as escreveram. É meu dever fazer o acompanhamento", disse.

"Mas também é necessário que o Parlamento esteja pronto para ajudar a pôr em prática essas recomendações. Nós podemos ajudar a concretizá-las", disse, acreditando que no próximo ciclo eleitoral essas recomendações sejam tidas em conta pelas autoridades moçambicanas: "Sim, senti a vontade de fazer a mudança".

Para a eurodeputada também não há dúvidas da importância do país africano, que é já um fornecedor mundial de gás e minérios, para a UE.

"Sejamos muito claros e abertos: Moçambique é de facto um parceiro de interesse estratégico para a Europa", disse.

Enfatizou que a "Europa está a investir muito em Moçambique" como parceiro, mas também em ajuda humanitária nos momentos críticos, ou no apoio ao desenvolvimento, como o programa +Emprego (implementado pelo instituto Camões) em Cabo Delgado, província no norte que visitou, fustigada desde 2017 por ataques terroristas.

"Fiquei muito impressionada. Já visitei muitos projetos, mas estes fizeram realmente a diferença na vida de muitos jovens. Quebraram realmente o círculo vicioso da pobreza, o círculo vicioso de não ter um futuro, deram às pessoas, aos jovens, esperança e otimismo. Por isso, penso que o projeto que a Europa está a apoiar faz muita diferença. É suficiente? Nunca é suficiente. Nunca é suficiente porque ainda há pessoas a sofrer. Mas precisamos de uma abordagem integrada", disse.

"Penso que a Europa não se orgulha o suficiente do que estamos a fazer. Penso que a Europa, digo-o sempre na Bélgica, a Europa precisa de um bom responsável pelas relações públicas", lamentou.


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